As razões do sucesso dos programas sociais
Rui Falcão
Um futuro historiador que se dispuser a estudar como os meios de comunicação terão avaliado as políticas sociais do governo Lula provavelmente encontrará na cobertura feita por publicações do exterior apontamentos mais consentâneos com a realidade do que os veiculados por poderosos meios de comunicação nacionais o que lhes permitirá compreender melhor o alcance das transformações sociais e econômicas em curso no País.
A má vontade e à má fé de grandes meios de comunicação em relação ao governo Lula desafia qualquer limite. Para ficar num único exemplo, mencionarei o caso do programa Bolsa-Família o maior e mais bem sucedido programa de erradicação da miséria já realizado em qualquer parte do mundo. Em matéria recente, um jornal de São Paulo anunciava no título que o Bolsa-Família não é eficaz porque não conseguiu vencer a desnutrição de 14% das crianças atendidas, segundo estudo do próprio governo. Esqueceu-se de utilizar ênfase de igual intensidade – pelo menos – ao ter de admitir implicitamente no corpo da matéria que 86% das crianças assistidas pelo programa já não apresentam sinais de desnutrição. Informações assim distorcidas constituem-se em regra e não em exceção.
Em contraste, nos últimos tempos publicações do exterior têm trazido com freqüência crescente matérias sobre o êxito dos programas sociais do governo Lula, que têm despertado interesse em toda parte. Assim, por exemplo, a prestigiosa revista Economist, escrevia em seu editorial da semana passada: Algo bastante excitante está acontecendo… Especialmente no Brasil e no México, os dois gigantes latino-americanos, as coisas estão melhores hoje do que nos anos 70. E, ao juntar argumentos sobre a solidez dos fundamentos econômicos, o semanário acrescenta: A estabilidade e o crescimento mais rápido começam a transformar as condições sociais com velocidade impressionante em parte por políticas dos governos democráticos reformistas. E aduz que a renda dos pobres cresce mais rapidamente do que a dos ricos no Brasil, país onde a desigualdade é a menor em uma geração.
Da mesma forma, numa entrevista publicada num jornal nacional, o entrevistado brasileiro criticava acerbamente o Bolsa-Família pelo seu caráter assistencialista, que não resolve nada. Em contraste, em direção oposta, uma outra instituição insuspeita o Banco Mundial divulgava na mesma semana um entrevista com o seu diretor de programas, Bénédicte de La Brière, em que exalta justamente o caráter não assistencialista – e por isso inovador – do Bolsa-Família.
É com a seguinte pergunta que começa o artigo do Banco Mundial: Será que políticas sociais, que vão além do assistencialismo, podem converter-se em instrumentos ativos de transformação social e econômica? O Brasil está nos mostrando que sim. O programa Bolsa-Família, que tem apoio técnico e financeiro do Banco Mundial, é considerado como um dos fatores-chave para a consecução dos resultados positivos obtidos pelo Brasil nos últimos anos. E prossegue o Banco Mundial: O Bolsa-Família é o programa social de maior impacto na vida de milhões de brasileiros de baixa renda… Os indicadores mostram que o programa deu uma contribuição decisiva para a redução sem precedentes da pobreza e desigualdade nos últimos anos.
O sucesso do programa é tão retumbante que tem sido copiado com adaptações por quase vinte países, prossegue o Banco Mundial. Entre esses países, Chile, México, África do Sul, Turquia e Marrocos. Mais recentemente, a cidade de Nova York anunciou o lançamento de seu programa de transferência de renda, inspirado no programa brasileiro, informa o banco.
Seria equivocado atribuir tais resultados apenas à eficiência com que é gerido o programa celebrada pela retórica tucana como um dos atributos exclusivos do tucanato. Aqui, não se trata apenas de estilo de gestão, mas também e fundamentalmente de diferença política, ideológica e de concepção. O Bolsa-Família somente vai muito bem por causa do papel atribuído ao Estado pelo governo e pelo PT e da sua concepção de democracia.
O governo Lula acerta no diagnóstico – segundo o qual o Brasil não é um país pobre, mas um país extremamente injusto e desigual e a desigualdade encontra-se na origem da pobreza porque concebe o crescimento econômico como não dissociado da justiça social, diferentemente dos tucanos, que confiam o desafio do crescimento econômico e da promoção da igualdade unicamente ao automatismo do mercado. Da opção e do diagnóstico governamental, segue o postulado de que somente mediante a participação popular será possível assegurar a eficácia da ação estatal na implementação das políticas públicas, pois essa eficácia depende da ampliação da esfera pública não-estatal, que se situa entre o privado e o estatal e é responsável pela incorporação da participação popular nos processos democráticos de tomada de decisão. Ou seja, o Bolsa-Família é um sucesso sem precedentes porque assenta sobre uma visão diferencial da democracia e do Estado. Sem participação popular, não há eficácia nas políticas públicas nem superação substantiva dos formalismos na democracia.
No governo Lula, os beneficiários das políticas sociais públicas integram a faixa do espectro até agora não reconhecida pelo sistema político conservador, elitista, retrógrado e excludente. São eles que contribuem para um salto qualitativo na democracia brasileira; para o seu enriquecimento e diversidade, ao desfrutarem – pela primeira vez na história do Brasil – da oportunidade de enunciar problemas comuns à luz de experiências pessoais; de desenvolver discussões políticas que tornam possível captar novos problemas e suas nuances; de esboçar sugestões e articular soluções a partir do reconhecimento de novas identidades e de diferentes interpretações das necessidades.
Para o governo Lula, embora o Estado tenha um papel insubstituível na implementação das políticas sociais públicas, sua intervenção não é suficiente para a sua implementação, devendo-se, portanto, lançar mão da iniciativa dos próprios beneficiários, em ações convergentes entre Estado, mercado e a sociedade civil, convergência indispensável para a promoção do desenvolvimento com redução da desigualdade, nas condições atuais.
O governo Lula entende que não cabe ao Estado deter o monopólio do público nem no extremo oposto – praticar o assistencialismo e a filantropia. Não há democracia substantiva nem desenvolvimento com redução da desigualdade sem participação popular. Nessa perspectiva, a promoção do desenvolvimento social não constituiria uma tarefa lateral e separável das outras tarefas do Estado. Induzir o desenvolvimento implica apoiar-se na inteligência e criatividade dos beneficiários; investir na capacidade das pessoas, reunidas nos movimentos sociais, para que possam afirmar-se como cidadãos e emancipar-se, para a superação dos problemas e satisfação das necessidades.
A comprovação a contrário do caráter emancipador dos programas sociais do governo Lula está no reconhecimento, por parte dos beneficiários, da ausência de intermediação por lideranças políticas, religiosas ou de outro tipo. A sua ocorrência seria um indicador da permanência da prática do clientelismo, que debilita a democracia.
A ausência do clientelismo e do assistencialismo expressa-se na exigência de contrapartidas por parte dos beneficiários. Tal exigência constitui uma forma de se ampliar o exercício do direito à saúde e à educação, ainda incompletos no País. Em relação aos serviços de saúde, o programa determina que gestantes, nutrizes e crianças de 0 a 6 anos sejam acompanhadas quanto à nutrição, mantendo-se o esquema de vacinação em dia. Gestantes devem participar das consultas de pré e pós-natal, e, assim como as mães de crianças de 0 a 6 anos, devem também participar das atividades educativas sobre saúde e nutrição.
No que tange à educação, exige-se 85% de freqüência escolar das crianças e adolescentes na faixa entre 6 e 15 anos. O não cumprimento das contrapartidas implica o desligamento das famílias beneficiárias do programa. Como resultado, o seu cumprimento tanto possibilita o acesso e a inserção da população pobre nos serviços sociais básicos como favoreça a interrupção do ciclo de reprodução da pobreza, configurando-se, assim, uma espécie de porta de saída do programa.
Nesse sentido, o Bolsa-Família deverá ter o seu êxito medido pela redução gradativa do número de beneficiários. Como diz o presidente Lula, espera-se que ao final de seu governo muitos deles possam ter-se desligado do programa, como testemunhas de sua própria emancipação. Será também um testemunho da pertinência da opção política e ideológica do Partido dos Trabalhadores pelo novo papel atribuído ao Estado e pela democracia participativa.